O futuro chegou

A quem diga que finalmente chegamos ao futuro. A pandemia seria o grande anúncio do amanhã. Embora muitos tenham recebido a famigerada “nova era” quando os relógios do mundo anunciaram 0:00 de 1 de janeiro de 2000, nossa maneira de existir continua (ou, pelo menos, continuava) a ser condizente com o século 20.

Muitos pensadores defendiam que o século se encerrava (mesmo antes de acabar) com a queda do muro de Berlim, em 1989. O aparente final do binarismo comunismo x capitalismo foi representado pela unificação da Alemanha e pela crença de que, finalmente, alcançaríamos um mundo pacificado. Antes que este texto possa sugerir uma crença na dissolução de nossos problemas, creio que estamos, com a pandemia, entrando finalmente no futuro – nada além disso.

Há tempos observamos o futuro bater em nossa porta. As novas tecnologias adentraram nos mais variados segmentos de nossa sociedade. Antes, doenças que nos matavam passaram a ser controladas com as mais novas drogas. Poucos são os que falam ao telefone para solicitar qualquer serviço: do táxi (ou Uber) ao jantar, com apenas um clique temos acesso a um vasto catálogo.

Mesmo com todas essas informações sobre avanço tecnológico em nossas vidas, por que, então, acreditar que o futuro só chegou agora? Seria a pandemia o símbolo maior de nossa entrada no século 21? Creio que sim. O desarranjo social ocasionado pela pandemia nos fez recorrer à tecnologia, mas, desta vez, com uma real necessidade. Se antes pedíamos comida por não estarmos tão dispostos a sair pra comer, hoje não temos escolha senão recorrermos aos apps. O teletrabalho, ferramenta, ainda, tão minimizada por boa parte dos que movimentam o mercado, tornou-se uma das  únicas saídas para a roda da economia continuar a girar.

Parece que foi necessária uma grande ação disruptiva, como a pandemia, para que entrássemos na escancarada porta que o futuro nos abria. Se enxergarmos a sociedade como um grande indivíduo, podemos dizer que, assim como ocorre com algumas pessoas, foi preciso um grande solavanco para que nos mexêssemos em direção ao nosso amanhã. Discussões que se iniciavam e acabam com muita prolixidade e pouco resultado, hoje são feitas em caráter emergencial. Discute-se renda mínima, a situação dos mais vulneráveis, saneamento básico, violência contra a mulher, entre outros. Agora que não temos mais escolha, parece que precisaremos agir.

O perigo da emergência das situações de risco é que somos levados a agir sem critério. Se antes a letargia nos tomava e a inércia era nossa resposta aos problemas, há grandes chances de que metamos os pés pelas mãos e busquemos saídas inadequadas para os nossos problemas. O efeito da cloroquina, por exemplo, parece ser um desses assuntos que são tratados com o mesmo critério maniqueísta que costumamos tratar tudo nos últimos anos. Política, sexualidade, religião. A pluralidade não ocupa a mente dos que têm pressa. Sinto esta emergência nos consultórios, quando vejo cada vez menos disponibilidade para sessões de 50 minutos e nem o famoso longo mergulho na própria alma que uma psicanálise oferece.

Vi recentemente uma matéria sobre psicoterapia através de inteligência artificial. Para não me alongar demasiado no tema, deixo o link para quem quiser saber mais sobre o assunto. O que há de importante nisso é que parece que até mesmo a psicologia não estará imune ao avanço da voracidade dos nossos tempos. Com a falta de tempo, pensa o apressado do século 21, recorrerei a um aplicativo que, através das inúmeras coletas de dados, terá condições de me ajudar nas “questões da alma”. Na reportagem sobre o assunto, as empresas responsáveis pelos app’s chamam de “psicoeducação” o tipo de trabalho desenvolvido pela inteligência artificial. Finalmente, chegamos ao futuro. Educação é sinônimo de saúde mental. Educar-se a quê? Para quê? Quem? Pauta para um próximo texto, mas vale a pena assistir “O poço”, disponível na Netflix.

Me parece que as “psicoterapias de smartphone” também farão parte dos assuntos que teremos preguiça de discutir. Assuntos como esses fazem parte do futuro e o futuro nunca chega. Há tempos o Conselho federal de psicologia sentou em cima da pauta sobre psicoterapia online. Agora, com a pandemia, assim como em muitos outros setores, viu-se obrigado a permitir que todos os psicólogos, devidamente registrados e credenciados, realizassem consultas por vídeo. Em breve, teremos de lidar com as questões éticas relacionadas aos “cyberpsis”. Muito provavelmente, este assunto será discutido em nossa próxima grande crise. No mais, o que me resta torcer é para que no futuro tenhamos a capacidade de não sermos tão preguiçosos e que não precisemos ser surpreendidos por questões que emergenciais. A outra hipótese é que, se realmente não mudarmos, desenvolvam a máquina do tempo. Um delorean ajudaria muito.

Tiago Pontes é psicólogo e atende em consultório particular na região da Vila Clementino, São Paulo, e em São Caetano do Sul. Gerencia a página suco de cerebelo que aborda temas como psicologia, psicanálise, filosofia, literatura, artes e comportamento.

 

Tiago Pontes

 

Psicólogo
CRP 06/123352

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