O sujeito do voto útil

Escolher é sofre

 

O processo democrático de escolha dos representantes da sociedade nas esferas do poder é um retrato ampliado de nossas concepções subjetivas. É interessante enxergar que nos posicionamos de maneira aguerrida e apaixonada apenas para fazer o nosso lado prevalecer. É a nossa escolha, através do voto, que pode ser a resolução dos problemas de toda uma sociedade. Dentro deste processo, ocupamos lugares e escolhemos qual posição assumiremos na “festa da democracia”. Boa parte dessas escolhas são fundamentadas pelas nossas concepções ideológicas que são, consequentemente, frutos das nossas experiências culturais/sociais: família, escola, faculdade e todas as redes de relacionamentos. Quando escolhemos, alguém já escolheu por nós antes, pois, inevitavelmente, nossos desejos são, também (voltarei a este “também” a seguir), frutos de árvores que não plantamos.

 

Freud disse que “O Eu não é senhor em sua própria casa”. Com esta frase impactante, quis reiterar que não somos tão donos como imaginamos do que sentimos e desejamos. As verdades que acreditamos muitas vezes são supervalorizadas, outras vezes subvalorizadas e em outras tantas ocasiões, nem verdades são. Nietzsche dizia que “As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que a mentira.” e que deveríamos suspeitar de qualquer certeza, pois tal atitude poderia nos aprisionar numa caverna de ignorância. É interessante pensar em como tais suspeitas podem nos causar incômodo, pois vão de encontro às nossas fantasias de dominação, poder e opressão sobre o desejo do outro.  Não estar com a razão é anular o direito de obter uma identidade, pois se não sei o que desejo, não sei quem sou.

 

Retornando ao “também” que destaquei no final do primeiro parágrafo, penso que seja importante tomarmos cuidado para não entendermos esta influência externa como a única responsável por nossas escolhas. O perigo do radicalismo das ideias mora exatamente em pensarmos que o ser humano pode ser reduzido a alguma fórmula matemática ou que conseguiremos mensurar estatisticamente o que existe em nós que é influência de terceiros e o que é, afinal, nosso mesmo. Neste sentido, entender o que nos motiva após nos tornarmos aquilo que somos torna-se tarefa fundamental para assumirmos uma posição ativa e, com as devidas ressalvas, sermos mais autorais.

 

No aspecto da política e de nossas ideologias, nossos desejos continuam orbitando esta lugar limítrofe entre o que é meu e o que é do outro. Nesta briga quase erótica, atacamos, defendemos e implodimos, se necessário for. Tudo para manter vivo aquilo que nos faz ser quem somos – ou o que acreditamos que somos. Um exemplo destas estratégias do EGO é a tentativa de aniquilar aquilo que não reconhecemos como nosso. Penso que o sujeito do voto útil (aquele que escolhe votar apenas para impedir que outro candidato ganhe, não se baseando no seu real desejo de voto) ocupe este espaço: tem o seu candidato, mas teme que um outro ganhe. Sendo assim, escolhe com base no medo que tem daquilo que não reconhece como seu e para impedir que essa verdade se solidifique, faz qualquer coisa. Vai por aproximação, opta pelo “menos pior”, pois sabe que o seu candidato (que representa a sua verdade) não terá forças para prevalecer. Ele continua e pensa: “se não posso ganhar, voltarei minha energia para impedir que o outro perca”.

 

A força da negação é maior que a da afirmação, apenas por saber que a sua verdade não ganhará “corpo”. No fim das contas, o que vemos nas eleições de 2018 é uma enorme parcela da sociedade mais preocupada com o que teme do que com o que acredita. A força para negar o que se teme superou o desejo de lutar pelo que se quer afirmar. Em psicanálise dizemos que quando negamos algo veementemente estamos tentando, de alguma maneira, impedir que nossos reais desejam ganhem corpo naquilo que combatemos. O sujeito do voto útil, no fim das contas, não tem forças para continuar acreditando naquilo que defende, pois não se sente capaz de reconhecer em si o que acredita ser verdade: é mais fácil odiar o desejo do outro do que pensar no meu próprio desejo. Um ego enfraquecido não se reconhece como detentor de força suficiente para “bancar” uma crença ou um posicionamento que encontrará resistência.

Talvez seja o momento de o brasileiro olhar mais para si e tentar entender por que o desejo do outro preocupa tanto, a ponto de fazê-lo esquecer no que acredita. Talvez o brasileiro precise se preocupar menos com o voto útil e mais com a utilidade do seu desejo.

 

Tiago Pontes é psicólogo clínico e social. Atende em consultório particular na região da Vila Clementino, São Paulo, e em São Caetano do Sul. Gerencia a página suco de cerebelo que aborda temas como psicologia, psicanálise, filosofia, literatura, artes e comportamento.

Tiago Pontes
Psicólogo
CRP 06/123352

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